MINIMALISM

fevereiro 15, 2016


Todos temos os nossos gatilhos, pequenos ou grandes, casualistas ou de indole psicológica, são as moções que nos fazem querer a transformação, a mudança, ansiar pela diferença, meditando sobre a coisa acho que os meus instintos de sobrevivencia sempre foram emocionais, demasiado pessoais, chamemos-lhe assim, porque querendo ou não a vida exige-nos constantemente que nos adaptemos, evoluamos e assim de certo modo sobrevivamos, numa vertente bem atenuada do sentido da palavra, mas que nem por tal exije menos preserverança ou esforço. Cada um com suas batalhas. Faz já três anos, penso, porra o tempo passa a correr, faz já três anos que o meu gatilho implodiu, a ordinária da vida, essa meretriz, decidiu roubar o chão ao meu irmão e por pouco a vida para seu cruel consolo, e custa muito não ver no rosto das pessoas que amamos a realidade que conhecemos deles, não os encontrar. Sobre isso não me quero alongar, não porque esteja enterrado e escondido lá para trás, mas porque a mim não diz respeito falar sobre o assunto, foram dois anos entregue as necessidades desse outro meu, porque os nossos, os de sangue, são uma extensão do que somos, e os meus fazem muita parte de mim, fazem-no cada vez mais. Já a Ellie Gouldding diz, “when i’m with you i’m standing with an army”.


A casa tornou-se demais, as paredes pareciam absorver o oxigénio e roubar-me o ar, havia demasiado de tudo e pouco ou nada de ti, o que todos queriam não estava aqui e a incognita da porra do amanhã fazia ninguem saber ou confirmar o que de lá viria. Começou aqui e assim. Foi fácil, demasiado fácil, apetecia-me abrir a janela e lançar todo o conteudo da casa mágicamente para o infinito, dar-lhe um sopro de sumisso, já foste! Mas esta longe de ser num passe de magica que se convertem formas de ser, agir impulsivamente é retomar ao ponto de partida com um peso maior e uma frustação inconsolável, a facilidade refletiu-se, e ainda se reflecte, inevitavelmente, na morosidade da tarefa. Minimizar, tornar-se minimalista, esta longe de ser um objectivo com final traçado ou, ainda que, com regras estabelecidas. Foi com o retorno a alguma da normalidade que a certesa se consolidou, não havia necessidade para metade das coisas, a maioria delas sem utilidade prática, uma existência de pode-vir-a-fazer-falta, a justificação de um uso regular quando não viam a luz do dia á longos meses, anos, e haja familia para ver utilidade até nas peças substituidas por factores de modernidade, não vá o diabo tecê-las é melhor guardar para a eventualidade da necessidade-que-nunca-virá. Acho que sempre houve menos disso em mim, seja porque o acréscimo da idade nos faça apegar mais as coisas, ou a realidade que fundamentou a personalidade dos nossos pais nunca se envolveu tanto no conceito do descartávels a que estamos nós tão bem habituados nos dias que correm, para o bem e para o mal de tudo, a verdade é que o gene da formiguinha amealhadora não é coisa fácil de se perder. Mas também não é impossivel.


A sociedade em que vivemos não ajuda, criou-se toda uma ideia de que para ser-mos felizes temos que comprar, que a felicidade, o que quer que isso seja, reside nas coisas, e que quantas mais dessas coisas comprar-mos melhor, mais felizes vamos conseguir ser. Vocês não sei, mas eu fico feliz com os zeros constantes no extracto da conta bancária, claro que existe um certo gozo em exibir uma pequenina percentagem desses zeros no closet, num parzinho novo de sapatos ou um casaquinho fresquinho da nova estação, mas os zeros... ai os zeros, dá-me uma satisfação bem maior. No resultado criado por esta sociedade residem três tipos de pessoas, os “Bora-lá-onde-esta-o-caixote-do-lixo” (tão eu!) vamos começar a destralhar, os “não-obrigado-eu-não-tenho-um-problema-de-tralha-tenho-um-problema-de-falta-de-espaço”, e quão conveniente esse factor espacial se torna (não é familia?), e por fim todos os interessados em começar mas que não sabem por onde! Por sorte, tipicamente o número dois tende a mudar de mentalidade quando vê a felicidade (e o espaço) dos restantes, foi assim que eu conquistei aqui por casa alguns adeptos.


Não é questionável uma gradualidade de mudança, é sim duvidoso um assumir meu de, eu tornei-me minimalista, assim como que se num estalar de dedos e já esta, next! Eu não acordei de manhã e pensei para com comigo mesma hoje vou ser minimalista, um dia, depois de tudo, olhei a volta, para o que andava eu a fazer toda atarefada em escarafunchar em todas as caixas, gavetas, encher sacos, e que sacos, quantos, de coisas que dizia já não querer, escolher arrumar e voltar a organizar, mudar de sitio, voltar e confirmar, descobrir que ainda podia ser menos... e pensei, olha, secalhar estas a transformar-me numa dessas pessoas minimalistas. *risos* Arrisco afirmar que ninguém vai ficar satisfeito numa primeira etapa de redução drástica de tudo, sem no segundo seguinte ponderar imediatamente que algo ou alguma coisa lhe faz agora imensa falta no canto mais remoto de sua casa porque simplesmente se desimpediu um metro quadrado de espaço que antes estava apilhado até ao tecto... culpada. Acho que a essência nestas andanças é a consistência dos nossos actos, simplificar sim até ai tudo bem, simplificar a dieta, os cacarecos, a saúde, a casa, o trabalho... o resumir de esforços que vos falava neste inicio de ano enquanto “set goals” para 2016, mas de modo sustentavel, gradual, não apenas nos vermos livres de coisas mas determinar num ritmo progressivo o que realmente nos faz falta, o que tem significado para nós, o que importa se assim for o caso. Será provavelmente o mais próximo de um voo para fora do ninho dos pais, a malta trata de reclamar para os seus novos domínios o que é razoavelmente mais novo, mais utilizado, relativamente útil, deixando para trás todo um sem número de bagagem emocional que nada agrega a novos começos!

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Photos: Pinterest

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